Saturday, November 21, 2009

Capitães de Abril


Tenho falado com os Capitães de Abril. Sim, eles existem, por estranho que isso possa parecer. Andam por aí, vivos e de boa saúde, na sua maioria. Sentem-se um pouco sós. Têm dificuldade (e eu também tenho) em compreender porque não falam mais com eles. Proporcionam as melhores conversas do mundo. São homens que tiveram um sonho, e quando acordaram a realidade tinha-se transformado nesse sonho. Ninguém recupera de uma experiência destas. Por isso, o mundo deles é um pouco fantasmagórico. Irreal, dir-me-ão. Não se compadece com as leis da Sociologia e da História.

Por um momento, eles viram o país totalmente entregue, totalmente vulnerável. E nunca mais o viram de outra maneira. Para eles, a realidade é contingente e as possibilidades infinitas. O país que eles vêm não é o que nós vemos.

As suas histórias têm algo de lenda, de mito fundador. É pelo menos assim que eu as ouço, durante horas, tentando, sem perguntar nada, encontrar respostas para todas as minhas interrogações. Uma delas é esta: por que razão não houve, naquele período de 1974/75, em que todas as ideologias disponíveis no planeta se digladiaram aqui, nas suas formas mais radicais, em que os líderes das várias facções antagónicas eram militares armados até aos dentes e não existia nenhum poder superior para os controlar, em que, entre milhões de pessoas, o ressentimento de décadas de opressão se misturava, como nitroglicerina, com o despojamento selvagem dos que não têm nada a perder... por que razão não houve violência, como no Ruanda ou na Bósnia?

A explicação é confrangedoramente simples: os capitães eram amigos. Tornaram-se amigos na guerra, que não era uma guerra qualquer: era injusta e estava perdida. E como nenhum homem sobrevive sozinho numa guerra injusta e perdida, a dívida que contrai com os seus companheiros é maior do que a própria vida.

“Tenho a certeza de que em nenhuma circunstância”, disse-me Garcia dos Santos, um dos operacionais-chave do 25 de Abril e do 25 de Novembro, “o Vasco Lourenço e o Otelo chegariam a um ponto em que, frente a frente, um disparasse um tiro nos cornos do outro”.

Podemos renegar toda a herança dos Capitães de Abril, menos isto. Eles insultaram-se, prenderam-se uns aos outros, conspiraram, fizeram golpes e contragolpes, levaram o país ao caos. Mas nenhum foi capaz de dar um tiro nos cornos de um amigo.

A amizade entre Otelo e Vasco vinha dos tempos da guerra da Guiné, do MFA e do PREC. Mas em Novembro de 75 encontravam-se à frente, respectivamente, de dois movimentos opostos. O pais esteve a um palmo da guerra civil. Um dia, na sede do COPCON, nas vésperas do 25 de Novembro, os dois homens tiveram uma discussão violenta, pela noite dentro. O tom de voz aumentava, à medida que percebiam, com desespero, que as suas posições eram irreconciliáveis e os colocariam em lados opostos da barricada. No auge da raiva, quando os companheiros temeram ver um deles sacar da pistola e dar um tiro nos cornos do outro, os dois duros calaram-se subitamente e desataram a chorar.

(PÚBLICO)

Friday, November 13, 2009

O voo dos estorninhos


A varanda do meu 4º andar é provavelmente o melhor ponto da cidade para observar os estorninhos. Esta é a época em que eles chegam, às centenas de milhares, para passar o Inverno. Instalam-se nas palmeiras à beira-rio, e entregam-se aos seus incríveis rituais quotidianos, durante alguns meses.

De manhã e ao princípio da tarde, não sei por onde andam. Mas antes do crepúsculo concentram-se aqui. E começam então os treinos. Porque é disso que se trata: enquanto estão num local fixo, treinam para a grande viagem sazonal de que depende a sua sobrevivência.

Separam-se em bandos, que voam em paralelo, para depois se unirem numa nuvem densa e opaca a rodopiar como um manto negro no vento. Avançam em formação militar, milimetricamente organizados por esquadrões em voo picado, que de súbito dispersam, e como que caem, à maneira de lágrimas num fogo de artifício. E depois fazem desenhos no céu, e efeitos de conjunto que parecem não ter outro propósito que não seja provocar intimidação e deslumbramento, como os jogos de massas na China de Mao.

Em certas manobras, é nítida a componente de espectáculo. Há estorninhos que rebolam desamparados até palmos do chão, antes de se elevarem num derradeiro golpe de asa, como trapezistas que fingem falhar o salto, só para ganhar um grito emocionado da plateia.

Sabe-se que o objectivo de tudo isto é ensaiar a grande expedição, em que as aves, avisadas por uma alteração hormonal no seu próprio organismo, viajam para outro habitat, usando complexos sistemas de navegação que incluem os campos magnéticos da Terra, a linha costeira, os sistemas hidrológicos e montanhosos, os maciços florestais ou a temperatura e humidade das massas de ar.

Mas a verdade é que as acrobacias aéreas dos pequenos pássaros podem ser assustadoras. Há meses li que uma aldeia da Beira Alta entrou em pânico por causa de um imenso bando de estorninhos que se instalou numa certa árvore da praça central. As pessoas convenceram-se de que aquele prodígio lhes traria doenças, ou mesmo males do outro mundo.

Em mim, o voo dos estorninhos tem um estranho efeito hipnótico. Não me canso de o observar. Se o fizer durante horas, um êxtase incompreensível apodera-se de mim. Ou de algum lugar longínquo em mim, onde nunca levei ninguém. Ou quase nunca.

Uma vez apaixonei-me por uma mulher de que não gostava. Quem passou por isso sabe que não é fácil. Pior: ela também não gostava de mim. Não obstante, fomos viver juntos. É impossível explicar porque aceitámos o Inferno que se seguiu. Talvez estivéssemos ambos tão cansados e desorientados, que não tivéssemos mais onde pousar.

Éramos completamente diferentes, todos os seus actos e palavras me enfureciam, não tínhamos um momento de paz. Excepto aquele.

Ela parava, os olhos muito abertos como pedaços azuis de céu, a observar o voo dos estorninhos. Eu aproximava-me e ficávamos ali os dois, de mãos dadas na varanda, em silêncio, extasiados.

Depois chegou a Primavera, os estorninhos voaram para outras paragens e ela também.

(PÚBLICO)

Saturday, November 7, 2009

Nini e Alexandra


A Nini vai a caminho de Coimbra, para entrevistar a tia Alexandra. Lembra-se dela desde criança. De como ela gostava de se maquilhar, de como era inteligente, bonita, sonhadora, aventureira e um tanto louca. Mas, ao mesmo tempo, de como inspirava confiança, respeitava valores tradicionais, chegava a ser conservadora e tinha uma fascinante dimensão espiritual: ao contrário de toda a família, afirmava-se católica.

Nini lembra-se também, desde criança, de outra característica da tia, que a tornava diferente da sua mãe (a irmã mais nova de Alexandra), das outras pessoas da família e das outras mulheres que conhecia: era toxicodependente.

Sempre a conheceu assim. Quando, aos 6 anos, lhe foi explicado o problema da tia, isso em nada alterou a imagem que tinha dela. Alexandra tivera uma violenta discussão com a mãe (a avó de Nini), após a qual saiu, aos gritos, a correr pelas ruas da aldeia onde então viviam, com a filha, ainda bebé, ao colo. Foi preciso chamar uma ambulância. Uma vizinha levou Nini para casa, para ela não ver. Depois, a mãe e a avó explicaram: “A tia toma uns remédios estranhos...”

Nini chama-se Alexandra, como a tia. Foi aliás ela que a crismou, mal a viu, recém-nascida. “Chamo Nini a todas as coisas de que gosto”, diria ela. E todos passaram a chamar Nini à pequena Alexandra, até hoje, aos 20 anos. O afecto entre tia e sobrinha foi imediato, constante e recíproco. As afinidades também. Ambas são tagarelas e adoram escrever. E até fisicamente são parecidas.

Quando terminou o Secundário, Nini matriculou-se no curso de Jornalismo, e quando foi preciso escolher o tema para um grande trabalho de reportagem, não teve dúvidas: escreveria sobre a tia Alexandra. Objectivo: queria perceber como começou ela a consumir drogas, e porquê. E quando.

A morte da irmã foi um marco decisivo, recordará Alexandra. O clique que abriria as portas à influência de todos os acontecimentos funestos. “Os meus pais sempre se deram mal”, contará ela. Principalmente desde que o pai começou a beber e a ter amantes. Uma delas, prostituta, dar-lhe-ia duas filhas, para além das duas que tinha do casamento. A mais nova destas “ilegítimas”, Ana Alexandra, foi abandonada pela mãe. Sobreviveu, mas ficou cega, e com outros problemas de saúde. O pai trouxe-a para casa e a família adoptou-a. Ela era inteligente e desenvolveu ambições, apesar de a saúde se lhe degradar de ano para ano. Queria ser advogada e chegou a candidatar-se à Universidade. No dia da sua morte soube-se que tinha entrado em Direito.

“Ela era a minha confidente”, explicará Alexandra. Durante muito tempo, aliás, foi a única pessoa a saber que a irmã consumia drogas. “Toda a família vivia em função dela, para tomar conta dela”, dirá Alexandra. “De certa forma, era isso que nos unia. Quando ela morreu, houve um grande vazio, e cada um seguiu o seu caminho. Para mim, a droga veio preencher esse vazio”.

Toda a família se lembra de como Alexandra estava “pedrada” no dia do funeral, acompanhada pelo novo namorado, o Roque, que viria a ser pai da sua filha, e que também era toxicodependente. “Fiz amor com o Roque pela primeira vez na véspera da morte da minha irmã”, dirá Alexandra.

Para a Nini, toda esta cronologia é muito confusa. Pois se a Ana era a única a saber que a Alexandra consumia drogas, como pode a tia ter começado a consumir depois da morte da irmã? Não terá sido por causa do divórcio? Alexandra admite que isso também contribuiu.

Tinha-se casado há pouco tempo e acreditava que era para sempre. Mas ele teve uma infidelidade e zangaram-se. “Os meus pais encorajaram-me a pedir o divórcio, e eu deixei-me influenciar”, dirá Alexandra. “Depois tentei voltar mas ele rejeitou-me. A família dele tratou-me mal”. Foi mais um elo na cadeia de esperanças mortas. Por alguma razão, tudo parecia correr mal na sua vida. Talvez porque acreditasse demasiado, fosse demasiado idealista e veemente, apostasse tudo no impossível, ou colocasse demasiada energia nos objectivos, energia deslocada, delirante. No liceu, no exame final de Filosofia, escreveu dez páginas e teve zero. Mais tarde, fez dolorosos tratamentos de recuperação das drogas, para ter uma recaída dias depois. Após se ter separado do Roque, chegou a ir viver para o Luxemburgo com um traficante que era perseguido pela Polícia. Não gostava dele nem ele dela, mas ela precisava de droga e ele de uma cozinheira.

Ele era um profissional. Previu que ia ser apanhado e quando os policias entraram lá em casa de metralhadoras, já ele escondera a droga toda. Mas Alexandra tinha-lhe tirado uma Polaroid, só para lhe mostrar como ele estava magro. A fotografia feita enquanto ele empacotava quilos de heroína estava em cima da mesa quando a Polícia chegou. “Que alívio! Finalmente vejo-me livre de ti!”, gritou Alexandra quando foram metidos nas carrinhas, algemados.

Enquanto esteve presa, escreveu várias cartas à Nini, tal como lhe escreveu sempre, de todas as vezes que esteve internada, em recuperação. Da prisão, também se correspondeu com o Roque, e começou a alimentar a esperança de voltar a viver com ele, e com a filha de ambos, que estava com os avós. Mas pouco depois de ter sido libertada, o Roque morreu. O círculo não parava, e o consumo também não.

Mas quando começou? E porquê? É isso que a Nini quer descobrir. A mãe diz-lhe que a tia é toxicodependente há 20 anos, e isso aterroriza-a. Ela, a Nini, tem 20 anos. Que se terá passado nessa altura? Uma vez, a mãe contou à Nini que a Alexandra ficou furiosa quando ela engravidou pela segunda vez. Com o seu estranho apego às tradições, achava que deveria ser ela a engravidar primeiro, por ser a mais velha. Ficou tão zangada que bateu na irmã.

A Nini tirou as suas conclusões: a tia entrou nas drogas por ela ter nascido.

A entrevista

Tia e sobrinha estão agora frente a frente, para a entrevista.

“Sabes que guardei todas as tuas cartas”, diz a Nini. “Tenho aqui esta, que mandaste da Quinta da Matinha, quando estiveste internada. Dizias que havia lá uma máquina de chocolate quente, lembras-te?”

“Não me lembro. A família só me foi ver dois meses depois. Parecia que tinham repugnância de mim”.

“Eu também era assim?”

“Também. Isso magoava-me muito. Houve uma altura em que a tua mãe me proibia de entrar em casa, para eu não te ver. E depois tu também te tornaste fria comigo”.

“Nunca sentiste que nos magoavas a nós, por causa da droga?”

“Não, porque vocês nunca me viram consumir”

“Não achas que a minha frieza era para tentar ajudar-te?”

“Eu sei, mas isso comigo é pior. Eu preciso que me digam que gostam de mim”.

Durante algum tempo, Nini tentou ser dura com a tia, na esperança de provocar nela uma reacção. Não lhe falava, não respondia às mensagens carinhosas que ela nunca deixou de enviar. Mas viu que isto não resultava e mudou de estratégia. Decidiu fazer a reportagem. O objectivo, ainda que apenas pressentido, era o mesmo: levá-la a deixar as drogas. Resultaria?

“Comecei a consumir há 20 anos”, diz Alexandra.

“Foi quando eu nasci”.

“Quando me disseste que querias fazer este trabalho, isso deu-me uma força enorme. As pessoas dizem que há um clique... Pois para mim isto foi o clique. Sabes, eu dantes não tinha medo de nada. Agora sinto-me completamente sozinha. Deixei de acreditar em mim, tenho medo das coisas”,

A Nini olha-a muito séria, sem vacilar, compenetrada da sua missão. Ouve a tia prometer que vai entrar para a unidade de recuperação do Hospital Sobral Cid. Já se inscreveu, está tudo planeado.

“Tu és a menina que sempre amei. E sinto que não te dei o que devia, por consumir drogas”, diz Alexandra.

Os olhos escuros e serenos da Nini estão agora um pouco confusos. O que está a acontecer é um mistério. Será que o simples interesse por uma pessoa pode fazê-la mudar a sua vida? Será que é a própria recapitulação da história que lhe dá um sentido e um epílogo? Será que o jornalismo pode salvar o mundo?

(PÚBLICO)

Veneno e antídoto


A primeira coisa que Alexandra pensou quando saiu da prisão foi em recuperar os carros. O namorado tinha registado três viaturas em nome dela antes de a Polícia ter entrado de metralhadoras na casa onde viviam e levado os dois algemados.

Para fugir das autoridades portuguesas, tinham ido para o Luxemburgo, mas as suas actividades deram demasiado nas vistas. O namorado de Alexandra traficava heroína e cocaína em grande escala. Ele sabia que mais tarde ou mais cedo seria apanhado e, por isso, tinha droga e dinheiro escondidos nos locais mais insuspeitos.

Apanhou cinco anos de prisão e Alexandra três meses de pena suspensa, por falta de provas, apesar de ele, no julgamento, ter feito os possíveis por a incriminar. Gritou, alto e bom som, que não tinha nada a ver com o tráfico e que toda a droga era dela. Ninguém acreditou, mas mesmo assim ela ainda cumpriu oito meses de prisão preventiva, após o que a puseram na rua, com 100 euros no bolso.

Não conhecia ninguém, não tinha para onde ir. Decidiu levantar os carros, na Polícia. Na primeira noite, dormiu em casa do advogado que a tinha defendido. Depois, procurou uma freira que a tinha visitado na prisão. Condoída, a religiosa emprestou-lhe uma cela do mosteiro.

E aí estava Alexandra, sozinha num pais estrangeiro, a viver num convento e com três carros à porta. Mas tudo se tornou ainda mais estranho quando, ao baixar a pala de um dos automóveis, para se proteger do sol, lhe caiu um maço de notas no colo. Pôs-se a inspeccionar o tablier, o porta-luvas, o espaço por baixo dos bancos e dos tapetes. Não só encontrou mais dinheiro, mas também quilos de heroína e cocaína. O pé-de-meia do ex-namorado estava afinal ali, nos carros que eram seus. Ele bem tinha dito no tribunal que a droga era dela. Pois agora era mesmo.

A primeira ideia foi vender tudo. Faria dinheiro para viver vários anos sem preocupações. Mas teve medo. Se o namorado foi apanhado, ela também poderia ser. Por outro lado, andar com toda aquela droga nos carros não era menos perigoso. Enquanto ganhava coragem para a deitar fora, foi consumindo. O mais possível, para se ver quanto antes livre do problema.

No convento, entretanto, a freira abria-lhe os olhos para Jesus. Emprestou-lhe um livro que lhe faria ver a vida de outra forma. Era uma edição com excertos da Bíblia e chamava-se “Boa Semente”. Alexandra leu-o e releu-o como quem regressa a um sonho antigo, porque desde criança se dizia católica, ninguém compreende porquê. A família não o era.

Alexandra recorda hoje com um certo prazer esse período de grande riqueza espiritual. Quando regressou ao seu país, trazia consigo Jesus e o vício das drogas. Fez um curso de cozinha, arranjou emprego num restaurante, entrou para um programa de metadona. Vai iniciar um tratamento de desintoxicação. Diz que se sente culpada, de cada vez que consome drogas.

Foi pouco antes de começar a fazê-lo, na adolescência, que declarou ser católica, talvez para contrariar a família. Ou talvez para inocular o antídoto, antes de provar o veneno.

(PÚBLICO)

Saturday, October 31, 2009

Os arquivos de Berlim


Tenho a certeza de que estava a ser sincero. “São vários caixotes, pode ficar com tudo. O trabalho é seu, se o quiser prosseguir”, disse Dominique Lapierre. Referia-se a centenas de documentos e testemunhos recolhidos durante vários meses em Berlim. Como se aproximava o vigésimo aniversário da queda do muro, a 9 de Novembro, Dominique decidiu escrever um livro sobre o assunto. Como é seu hábito, escolheu o momento em que se concentra toda a energia dramática que contaminaria décadas de História: a madrugada de 13 de Agosto de 1961, em que a cidade foi surpreendida pela construção da enorme parede que a dividiu em duas

“As pessoas acordaram de manhã e viram o muro”, conta Lapierre. “Uma menina tinha ido levar o cão ao veterinário e já não o pôde ir buscar, porque ficara do outro lado da vedação”.

Eram estas histórias que o antigo jornalista da Paris Match queria contar. Das pessoas que viram uma parede de betão nascer nas suas vidas, de um dia para o outro. E instalou-se na capital alemã, para fazer entrevistas, consultar arquivos.

Dominique Lapierre escreveu vários best-sellers. Um deles é uma narrativa sobre um bairro miserável de Calcutá, na Índia. Durante três anos, fez mais de 200 entrevistas, consultou diários e cartas pessoais, e sobretudo viveu entre aqueles milhares de pobres, do bairro chamado “Cidade da Alegria”, que viu como heróis. Em pouco tempo, o livro “A Cidade da Alegria” vendeu mais de 5 milhões de exemplares em todo o mundo e deu origem a um filme.

Escreveu outro livro sobre a criação do estado de Israel (“Oh Jerusalém”), outro sobre a cidade de Paris no dia da libertação, após a Segunda Guerra (“Paris já Está a Arder?”), outro sobre a independência da Índia (“Esta Noite a Liberdade”), outro ainda sobre a África do Sul (“Um Arco-íris na Noite”), que está agora a ser lançado em Portugal, pela editorial Planeta. Todos eles são grandes crónicas, suficientemente universais para apaixonar milhões de pessoas, de diferentes regiões e culturas. A Dominique só essas histórias interessam. É capaz de correr o mundo inteiro à procura de uma e, quando a encontra, reconhece-a.

Achou que a madrugada da construção do muro de Berlim era uma dessas histórias. Mas depois de meses de trabalho, concluiu que não era, e abandonou o projecto. Porquê? Que ingrediente faltava a esse acontecimento único e absurdo, simples e monstruoso? A noite da construção do muro. Um livro inteiro sobre aquela noite. Quem não gostaria de o ler?

Mas Dominique pensa com ideias elementares. “Foi uma noite terrível para os alemães, mas não o suficiente para os redimir do horror que trouxeram ao mundo”. Por isso, por essa falha no equilíbrio da grande balança universal das emoções, o livro não comoveria as pessoas.

E os caixotes lá estão, para quem os quiser aproveitar. Todo o material para um best-seller. Pela minha parte, talvez por não ser francês, não me importaria de o escrever. Mas seria impossível. Com a decisão de Dominique, o destino daquela história já está escrito.

(PÚBLICO)

Saturday, October 24, 2009

Escritor em fúria


Para escrever um livro, precisava de um ano com todo o tempo só para mim. Um ano inteiro sem trabalho, preocupações ou solicitações de alguma espécie. Então sim, escreveria uma obra-prima. Ou não, mas como poderei saber?

Tenho pensado muito nisto. E investigado. Consultei advogados, médicos, empresários da finança, agentes de seguros, burlões, delinquentes, especialistas no dolce far niente, que conheço muitos. Surgiram várias ideias. A primeira, avançada por um amigo meu, é esta: partir uma perna.

“Não nas imediações do joelho ou do tornozelo, que pode ser muito complicado, e ficar com mazelas para toda a vida”, explicou o meu amigo, com grande conhecimento de causa. “Tem de ser a meio da canela”.

Uma fractura na tíbia, transversal, bem a direito, limpinha, sem lascas, dá direito a três meses de gesso e outros três de fisioterapia, que é uma espécie de tratamento de SPA pago pela Segurança Social, disse ele.

Era uma boa ideia. De cama, com uma perna engessada, não poderia fazer mais nada além de escrever o meu livro. Mas como fracturar uma tíbia em segurança? Simular uma queda ou um acidente de automóvel pareceu-me demasiado imprevisível, em termos de efeitos. E não consegui imaginar-me empunhando um serrote, ou uma rebarbadora.

Alguém me sugeriu então algo ainda mais perverso (mas quem dá importância à escrita é capaz de tudo): ser preso. Um ano na cadeia, isolado na minha cela, com tecto, comida e cama e sem distracções. Perfeito.

Desatei a estudar os códigos. Era preciso encontrar um crime cuja pena prevista fosse exactamente um ano de prisão, nem mais em menos. Parecia fácil, mas não era. No nosso ordenamento jurídico, tendo em conta as leis e a jurisprudência, os crimes mais leves raramente implicam penas de prisão efectiva. Sentenças de meses ou um ano são geralmente emitidas sob a forma de pena suspensa, com multas. O que, no meu caso, seria contraproducente. O que eu queria era ser preso, para escrever à vontade, e não ter de trabalhar ainda mais, para pagar as multas. Para se ser preso, efectivamente, é necessário cumprir penas de vários anos.

Uma amiga advogada descobriu no entanto a excepção. Depois de um aturadíssimo estudo dos códigos Penal e do Processo Penal, encontrou o artigo e a alínea que me convêm. Para o crime de homicídio embora atenuado por um justificado estado de fúria que leve a, num momento tresloucado, um acto impensado de violência assassina, a pena prevista é... um ano de prisão efectiva.

O legislador estaria certamente a pensar no caso do marido que apanha a mulher na cama com o canalizador, e não no de um escritor com falta de tempo para criar, mas a verdade é que aquela piedosa norma me assenta como uma luva.

Desde que descobri isso, ando à espera que a ocasião se proporcione. E talvez não seja o único. O desconhecimento da lei não aproveita a ninguém.

É por isso que é um enorme erro subestimar um escritor possuído pela raiva. Quando virem um a avançar, em fúria, tomem cuidado. Tomem muito cuidado.

(PÚBLICO)

Saturday, October 17, 2009

Viagens e nomes


Dirigi-me a Paul Theroux, para o cumprimentar. Ele não percebeu logo o meu nome e perguntou: “Ah Paul. Também é Paul”.

Eu disse que sim, para facilitar. Para mim, não há grande diferença. O meu endereço do gmail é mourapaul, porque todas as combinações de Paulo e Moura já estavam ocupadas. Quando vivia nos EUA, não me apetecia, por vezes, perder muito tempo a soletrar o nome e dizia chamar-me Paul Moore. Era mais simples e não via razões para não o fazer. Mas há razões. Um nome está carregado de política. E História, e, em consequência, de pólvora.

“Sim, chamo-me Paul”, disse eu enquanto apertava a mão a Theroux e antes de me dirigir a Helene Cooper, uma escritora que também tinha sido convidada para aquele seminário de literatura de viagens. Helene, que é hoje correspondente na Casa Branca do “New York Times”, escreveu um livro sobre a sua infância na Libéria. Tínhamos jantado juntos no dia anterior, mas agora eu ia entrevistá-la sobre o livro, que passara parte da noite a ler.

Helene tem aquilo a que se chama uma história extraordinária. Nasceu na Libéria, numa família considerada nobre, por ser descendente dos fundadores do país, os escravos americanos libertados que regressaram a África. Durante o golpe de estado de 1980, parte da sua família foi assassinada, a sua mãe violada. Com ela e uma irmã, Helene, aos 14 anos, fugiu para os EUA, onde mais tarde se tornaria jornalista e faria a cobertura de várias guerras, ao serviço do “Wall Street Journal” e do “New York Times”.

Foi depois de quase ter morrido no Iraque que decidiu regressar à Libéria. “Não faz sentido eu morrer aqui”, pensou na altura. “Se tenho de morrer, deveria ser na Libéria”. Pouco depois, partiu para o seu país natal, que nunca mais tinha visitado, para escrever “A Casa da Praia do Açúcar”.

Estava a rir, quando cheguei ao pé dela. “Paul?”, perguntou, cheia de sarcasmo. “Tens mesmo de anglicizar o teu nome só porque estás a falar com paul Theroux?”

Era meio a brincar, meio a sério. Era inevitável que os escritores mais jovens fizessem alguma chacota com a deferência pacóvia com que Theroux, a grande estrela da literatura de viagens, era tratado no seminário. Mas havia algo mais. Um estranha sensibilidade em relação aos nomes.

“Mr Paul!”, brincava Helene, convencida de que eu tinha vergado o meu orgulho étnico à autoridade anglo-saxónica de Paul Theroux.

Tive vontade de dizer: “Mas tu, sendo africana, chamas-te Cooper, porque os teus tetravós foram escravos na América!” E pensei também que o próprio Theroux, como o nome indica, é neto de franceses, que imigraram para o Canadá.

Mas calei-me a tempo, porque percebi que era precisamente por isso que ela não me perdoava a leviana conversão ao “Paul”.

Mesmo sem nos darmos conta, os nossos nomes estão numa guerra surda entre si, como os genes. Cada letra que os compõe é herdeira de utopias e sonhos, de opressões, colonizações, humilhações e massacres. Mas não se podem questionar. Porque eles são, ao mesmo tempo, o fim e o princípio de uma viagem.

(PÚBLICO)