
A Nini vai a caminho de Coimbra, para entrevistar a tia Alexandra. Lembra-se dela desde criança. De como ela gostava de se maquilhar, de como era inteligente, bonita, sonhadora, aventureira e um tanto louca. Mas, ao mesmo tempo, de como inspirava confiança, respeitava valores tradicionais, chegava a ser conservadora e tinha uma fascinante dimensão espiritual: ao contrário de toda a família, afirmava-se católica.
Nini lembra-se também, desde criança, de outra característica da tia, que a tornava diferente da sua mãe (a irmã mais nova de Alexandra), das outras pessoas da família e das outras mulheres que conhecia: era toxicodependente.
Sempre a conheceu assim. Quando, aos 6 anos, lhe foi explicado o problema da tia, isso em nada alterou a imagem que tinha dela. Alexandra tivera uma violenta discussão com a mãe (a avó de Nini), após a qual saiu, aos gritos, a correr pelas ruas da aldeia onde então viviam, com a filha, ainda bebé, ao colo. Foi preciso chamar uma ambulância. Uma vizinha levou Nini para casa, para ela não ver. Depois, a mãe e a avó explicaram: “A tia toma uns remédios estranhos...”
Nini chama-se Alexandra, como a tia. Foi aliás ela que a crismou, mal a viu, recém-nascida. “Chamo Nini a todas as coisas de que gosto”, diria ela. E todos passaram a chamar Nini à pequena Alexandra, até hoje, aos 20 anos. O afecto entre tia e sobrinha foi imediato, constante e recíproco. As afinidades também. Ambas são tagarelas e adoram escrever. E até fisicamente são parecidas.
Quando terminou o Secundário, Nini matriculou-se no curso de Jornalismo, e quando foi preciso escolher o tema para um grande trabalho de reportagem, não teve dúvidas: escreveria sobre a tia Alexandra. Objectivo: queria perceber como começou ela a consumir drogas, e porquê. E quando.
A morte da irmã foi um marco decisivo, recordará Alexandra. O clique que abriria as portas à influência de todos os acontecimentos funestos. “Os meus pais sempre se deram mal”, contará ela. Principalmente desde que o pai começou a beber e a ter amantes. Uma delas, prostituta, dar-lhe-ia duas filhas, para além das duas que tinha do casamento. A mais nova destas “ilegítimas”, Ana Alexandra, foi abandonada pela mãe. Sobreviveu, mas ficou cega, e com outros problemas de saúde. O pai trouxe-a para casa e a família adoptou-a. Ela era inteligente e desenvolveu ambições, apesar de a saúde se lhe degradar de ano para ano. Queria ser advogada e chegou a candidatar-se à Universidade. No dia da sua morte soube-se que tinha entrado em Direito.
“Ela era a minha confidente”, explicará Alexandra. Durante muito tempo, aliás, foi a única pessoa a saber que a irmã consumia drogas. “Toda a família vivia em função dela, para tomar conta dela”, dirá Alexandra. “De certa forma, era isso que nos unia. Quando ela morreu, houve um grande vazio, e cada um seguiu o seu caminho. Para mim, a droga veio preencher esse vazio”.
Toda a família se lembra de como Alexandra estava “pedrada” no dia do funeral, acompanhada pelo novo namorado, o Roque, que viria a ser pai da sua filha, e que também era toxicodependente. “Fiz amor com o Roque pela primeira vez na véspera da morte da minha irmã”, dirá Alexandra.
Para a Nini, toda esta cronologia é muito confusa. Pois se a Ana era a única a saber que a Alexandra consumia drogas, como pode a tia ter começado a consumir depois da morte da irmã? Não terá sido por causa do divórcio? Alexandra admite que isso também contribuiu.
Tinha-se casado há pouco tempo e acreditava que era para sempre. Mas ele teve uma infidelidade e zangaram-se. “Os meus pais encorajaram-me a pedir o divórcio, e eu deixei-me influenciar”, dirá Alexandra. “Depois tentei voltar mas ele rejeitou-me. A família dele tratou-me mal”. Foi mais um elo na cadeia de esperanças mortas. Por alguma razão, tudo parecia correr mal na sua vida. Talvez porque acreditasse demasiado, fosse demasiado idealista e veemente, apostasse tudo no impossível, ou colocasse demasiada energia nos objectivos, energia deslocada, delirante. No liceu, no exame final de Filosofia, escreveu dez páginas e teve zero. Mais tarde, fez dolorosos tratamentos de recuperação das drogas, para ter uma recaída dias depois. Após se ter separado do Roque, chegou a ir viver para o Luxemburgo com um traficante que era perseguido pela Polícia. Não gostava dele nem ele dela, mas ela precisava de droga e ele de uma cozinheira.
Ele era um profissional. Previu que ia ser apanhado e quando os policias entraram lá em casa de metralhadoras, já ele escondera a droga toda. Mas Alexandra tinha-lhe tirado uma Polaroid, só para lhe mostrar como ele estava magro. A fotografia feita enquanto ele empacotava quilos de heroína estava em cima da mesa quando a Polícia chegou. “Que alívio! Finalmente vejo-me livre de ti!”, gritou Alexandra quando foram metidos nas carrinhas, algemados.
Enquanto esteve presa, escreveu várias cartas à Nini, tal como lhe escreveu sempre, de todas as vezes que esteve internada, em recuperação. Da prisão, também se correspondeu com o Roque, e começou a alimentar a esperança de voltar a viver com ele, e com a filha de ambos, que estava com os avós. Mas pouco depois de ter sido libertada, o Roque morreu. O círculo não parava, e o consumo também não.
Mas quando começou? E porquê? É isso que a Nini quer descobrir. A mãe diz-lhe que a tia é toxicodependente há 20 anos, e isso aterroriza-a. Ela, a Nini, tem 20 anos. Que se terá passado nessa altura? Uma vez, a mãe contou à Nini que a Alexandra ficou furiosa quando ela engravidou pela segunda vez. Com o seu estranho apego às tradições, achava que deveria ser ela a engravidar primeiro, por ser a mais velha. Ficou tão zangada que bateu na irmã.
A Nini tirou as suas conclusões: a tia entrou nas drogas por ela ter nascido.
“Sabes que guardei todas as tuas cartas”, diz a Nini. “Tenho aqui esta, que mandaste da Quinta da Matinha, quando estiveste internada. Dizias que havia lá uma máquina de chocolate quente, lembras-te?”
“Não me lembro. A família só me foi ver dois meses depois. Parecia que tinham repugnância de mim”.
“Eu também era assim?”
“Também. Isso magoava-me muito. Houve uma altura em que a tua mãe me proibia de entrar em casa, para eu não te ver. E depois tu também te tornaste fria comigo”.
“Nunca sentiste que nos magoavas a nós, por causa da droga?”
“Não, porque vocês nunca me viram consumir”
“Não achas que a minha frieza era para tentar ajudar-te?”
“Eu sei, mas isso comigo é pior. Eu preciso que me digam que gostam de mim”.
Durante algum tempo, Nini tentou ser dura com a tia, na esperança de provocar nela uma reacção. Não lhe falava, não respondia às mensagens carinhosas que ela nunca deixou de enviar. Mas viu que isto não resultava e mudou de estratégia. Decidiu fazer a reportagem. O objectivo, ainda que apenas pressentido, era o mesmo: levá-la a deixar as drogas. Resultaria?
“Comecei a consumir há 20 anos”, diz Alexandra.
“Foi quando eu nasci”.
“Quando me disseste que querias fazer este trabalho, isso deu-me uma força enorme. As pessoas dizem que há um clique... Pois para mim isto foi o clique. Sabes, eu dantes não tinha medo de nada. Agora sinto-me completamente sozinha. Deixei de acreditar em mim, tenho medo das coisas”,
A Nini olha-a muito séria, sem vacilar, compenetrada da sua missão. Ouve a tia prometer que vai entrar para a unidade de recuperação do Hospital Sobral Cid. Já se inscreveu, está tudo planeado.
“Tu és a menina que sempre amei. E sinto que não te dei o que devia, por consumir drogas”, diz Alexandra.
Os olhos escuros e serenos da Nini estão agora um pouco confusos. O que está a acontecer é um mistério. Será que o simples interesse por uma pessoa pode fazê-la mudar a sua vida? Será que é a própria recapitulação da história que lhe dá um sentido e um epílogo? Será que o jornalismo pode salvar o mundo?
(PÚBLICO)






