
É verdade que Euridice não é jovem. Nota-se. Quando o doutor Andre Keyser a encontrou no fundo desta gruta de Sterkfontein, em 1994, percebeu logo que estava na presença de uma mulher de outros tempos. Não quis arriscar um número, para não cometer nenhuma indelicadeza, mas os estudos ulteriores apontaram para uma idade entre 1,5 milhões e 2 milhões de anos.
Euridice (como o seu descobridor a baptizou) pertence à família dos Paranthropus Robustus, e o seu crânio está invulgarmente completo e bem conservado, tendo em consideração tudo aquilo por que passou. Por isso é precioso e está num museu, perto da gruta.
O problema, no entanto, não é a idade: é o ar apalermado de Euridice. Eu sei que a época não ajudava. Os gadgets eram pouco sofisticados, não havia nada para ler. Mas por amor de Deus, Euridice. Podias evitar esses olhos juntos e esbugalhados, essas bochechas redondas como abóboras, esse sorriso alvar. Acima de tudo, essa expressão pouco inteligente, Euridice. Afinal, sendo uma das mais antigas antepassadas do ser humano, gostaríamos de nos podermos orgulhar de ti. É pedir muito?
Há outros crânios encontrados na área. É oriunda daqui, aliás, nesta zona a que se chama “O Berço da Humanidade”, nas imediações de Joanesburgo, na África do Sul, mais de metade dos restos fósseis de hominídios achados no mundo.
Mas os outros exemplares, expostos no museu, não apresentam semblantes mais circunspectos. Poderia pensar-se que Euridice era uma mulher particularmente aparvalhada, mesmo para os padrões do tempo. Mas não. A Paleontologia confirma que eram todos assim. Uma vergonha. Longe de imporem algum respeito, os avós do Homo Sapiens eram motivo de troça do mundo primitivo.
Um dia, Bruce Chatwin visitou esta gruta. Falou com os arqueólogos e paleontólogos envolvidos nas escavações, para confirmar uma teoria: os nossos antepassados não metiam medo às criaturas que habitavam o planeta há milhões de anos. Pelo contrário, viviam aterrorizados com os outros animais. Não eram predadores, eram presas.
Em todos os vestígios encontrados na zona de Sterkfontein, não há uma única prova da agressividade dos hominídios. Não há armas, nem sinais de guerras, lutas ou sequer caçadas. Os Paranthropus Robustus comiam vegetais e passavam a vida a fugir de um enorme felino de dentes de sabre, antepassado do tigre e do leão, chamado Dinofelis.
Esqueletos desde predador permitiram fazer reconstituições, que também estão expostas no museu. Este sim, é um animal com dignidade. Olhando para ele e para Euridice, não se percebe como não está a raça humana extinta há milhões de anos.
Depois de Chatwin, outro escritor veio aqui confirmar outra teoria. Paul Theroux quis saber se a não agressividade pode ter sido uma vantagem evolutiva da nossa espécie.
Almoçando com um antropólogo de Sterkfontein, ele disse-lhe: “Tente fazer a careta mais assustadora que conseguir”. Theroux esforçou-se.
“Está a ver?”, respondeu o antropólogo. “Somos a única espécie que, quando quer assustar, faz tudo menos mostrar os dentes”.
(PÚBLICO)

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